Dois anos depois – Rio Grande do Sul e o agro que ainda se reconstrói.

Por: Redação Agrienergy – 26 de abril de 2026 – 2 min de leitura

Dois anos após a maior catástrofe climática da história do estado, o campo gaúcho enfrenta um terceiro ano consecutivo de dificuldades — e a pergunta que não cala: o que precisamos mudar para que isso não se repita?

Maio 2026 · Análise exclusiva Agrienergy

A catástrofe

O que aconteceu em abril e maio de 2024

Entre o final de abril e o início de maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu o maior desastre climático de sua história. Em apenas alguns dias, choveu entre 300 e 700 mm em diferentes pontos do estado — volumes que correspondem a até um terço da precipitação média anual, caindo em uma semana. O Guaíba, em Porto Alegre, atingiu 5,37 metros, superando as históricas enchentes de 1941.

Mais de 60% do território gaúcho foi afetado. As chuvas de maio levaram 14 trilhões de litros de água para o Lago Guaíba — volume equivalente a quase metade do reservatório de Itaipu. Foram 183 mortos, 27 desaparecidos e mais de 2,4 milhões de pessoas impactadas de alguma forma.

“Em várias cidades chegou a chover de 500 a 700 mm, correspondendo a um terço da média histórica de precipitação para todo um ano.”

O estado decretou calamidade pública em 1º de maio. Era a maior tragédia meteorológica da história do Rio Grande do Sul — um estado que, por sua posição geográfica no extremo sul do Brasil, já convive historicamente com a dualidade extrema entre enchentes e secas.

O clima que não voltou ao normal

Temperatura acima da média e o ciclo que não para

O RS não retornou a uma condição climática estável após a enchente — e os dados do INMET confirmam isso. O verão de 2024/2025 foi o sexto mais quente do Brasil desde 1961, com temperatura média 0,34°C acima da série histórica de 1991–2020. As maiores temperaturas máximas do país foram registradas justamente no Rio Grande do Sul, com três ondas de calor entre janeiro e março de 2025.

O que os dados mostram é uma oscilação extrema que não dá trégua ao produtor gaúcho: enchente histórica em 2024, calor e seca severa em 2025, e um 2026 que começa com déficit de chuvas e ameaça de novo El Niño. Não é um estado “fora do normal” — é uma nova normalidade climática que exige adaptação estrutural.

Vale notar: embora circulem informações sobre “5 graus acima da média” no estado, os dados verificados do INMET apontam anomalias menores em termos de média anual — mas com picos de calor extremo pontuais, especialmente durante as ondas de calor, que podem superar em vários graus os máximos históricos de cada cidade. O efeito sobre a agricultura, no entanto, é devastador mesmo com anomalias menores, porque os picos ocorrem nos momentos mais críticos do ciclo das culturas.

O agro após a catástrofe

Três anos consecutivos de dificuldades no campo gaúcho

O Rio Grande do Sul é um dos maiores produtores agrícolas do Brasil. Responde por 70% do arroz nacional, 45,9% do trigo, 76,8% da aveia, 47% das uvas, 12,6% da soja e produz ainda suínos, frangos, leite e uma série de frutas de clima temperado. Quando o RS sofre, o Brasil sente.

2022–2023 · Antes da enchente

Dois anos de seca severa já haviam castigado o campo gaúcho. Safras frustradas, endividamento crescente no campo e queda de renda antes mesmo da catástrofe de 2024.

Abril–Maio 2024 · A enchente

Além das vidas e da infraestrutura, a agricultura foi devastada. 5,6% do território do estado foi diretamente atingido pelas águas. Perdas em soja, arroz, trigo e milho. Erosão de solo em áreas que haviam abandonado práticas de conservação. Dez grandes unidades industriais de aves e suínos paralisadas.

2024–2025 · Tentativa de recuperação

2025 foi apontado pela FecoAgro/RS como “um dos anos mais difíceis para a agricultura gaúcha”. Estiagem voltou a afetar soja e milho. Produtores sem acesso a crédito, endividamento crescente, cooperativas no limite. A soma de estiagem, custos elevados e preços baixos formou um quadro de tripla pressão.

2025–2026 · Terceiro ano de dificuldade

A safra 2025/2026 começou com estimativa de 35,3 milhões de toneladas — e foi revisada para 32,8 milhões, redução de 7,1%. A soja, principal cultura, projeta 19 milhões de toneladas — queda de 11,3% frente à estimativa inicial. O arroz recuou 8% na área plantada. Em algumas regiões, perdas superiores a 50%.

Os recursos e a reconstrução

O que foi prometido, o que chegou e o que ainda falta

O governo federal destinou R$ 111,6 bilhões ao Rio Grande do Sul — Dos recursos previstos, R$ 89 bilhões (80%) já foram executados.

A suspensão da dívida do RS com a União por 3 anos liberou ainda R$ 18,9 bilhões que seriam pagos ao governo federal em juros — valor que ficará no estado para financiar a reconstrução.

Contexto político

Emendas parlamentares: o número que provoca reflexão

Para contextualizar a escala dos recursos mobilizados para o RS, vale um dado do orçamento federal: em 2024, as emendas parlamentares somaram R$ 40,89 bilhões no Brasil — recursos que deputados e senadores indicam para suas bases eleitorais em todo o país. Em 2025, o valor chegou a R$ 31,5 bilhões efetivamente pagos, com mais R$ 15,5 bilhões empenhados. Para 2026, o Congresso aprovou R$ 61 bilhões em emendas no orçamento.

A comparação não é uma acusação — é uma reflexão legítima sobre prioridades. A reconstrução do RS mobilizou, em volume total destinado, mais do que o dobro de dois anos de emendas parlamentares nacionais. Mas a velocidade de execução e a qualidade do gasto sempre foram o verdadeiro teste.

“A reconstrução não pode ser medida pelo valor anunciado, mas pelo número de famílias que saíram da moradia temporária, pelas pontes entregues e pela segurança devolvida.”

O que o momento pede não é antagonismo político — é um debate sério sobre como o Brasil prioriza recursos para resiliência climática antes que os desastres aconteçam, e não apenas depois.

O que o campo gaúcho precisa agora

Tecnologia, irrigação e resiliência climática como resposta estrutural

O vice-governador Gabriel Souza sintetizou bem o desafio: “Precisamos resolver o passado e preparar o futuro do agro gaúcho, ampliando a irrigação e investindo em políticas que reduzam a dependência do clima.” Essa frase contém a essência do que o Agrienergy Summit (nosso congresso sobre Fazendas Inteligentes) sempre defendeu.

Um estado que concentra 70% do arroz brasileiro, que já sofreu seca severa em 2022/2023, enchente histórica em 2024 e estiagem em 2025 não pode continuar dependendo da chuva certa na hora certa. Isso não é gestão — é sorte.

O que ainda falta — e que a fazenda inteligente pode oferecer

A tragédia expôs uma vulnerabilidade estrutural que vai além da falta de diques. Ela revelou o quanto o campo gaúcho ainda depende de práticas de manejo que aumentam os danos — abandono do terraceamento, simplificação do solo, falta de monitoramento hídrico em tempo real.

Pesquisas da UFRGS mostram que propriedades que mantiveram terraceamento e práticas de conservação do solo sofreram perdas significativamente menores durante a enchente. A tecnologia — sensores, IA, monitoramento por satélite — não é um luxo para o RS. É uma necessidade de sobrevivência econômica.

O estado que produz 70% do arroz brasileiro não pode depender de calendário para decidir quando irrigar. Não pode descobrir que o rio vai transbordar quando a água já está na porta. Não pode perder safras por falta de dados que já existem e que já poderiam estar nas mãos do produtor.

Essa é a conversa que o Agrienergy Summit propõe: não apenas lamentar o que aconteceu, mas construir o campo que não se deixa devastar da mesma forma duas vezes.

Agrienergy

Fontes: INMET, Emater/RS, IBGE, IRGA, Seapi/RS, FecoAgro/RS,
Governo Federal (Secom/PR), Agência Brasil, NDMais, Agrolink
Edição especial · Dois anos das enchentes do RS · Maio 2026